A música já salvou minha vida mais de uma vez – e considerando que não tenho nenhum talento para tocar um instrumento, uma das coisas que me dá muito prazer é criar mixtapes – ou playlists, como se faz hoje. De fato, todos meus textos sempre começam com a criação de um roteiro musical que me ajuda a entender não só o clima do que estou pensando em escrever, mas também seu ritmo, suas viradas e sua complexidade. Mas independente desse papel no meu processo criativo, a música sempre teve uma importância fundamental na minha formação de caráter – descobrir músicas novas (sejam elas atuais ou antigas) é parte da minha terapia de vida.

Obviamente tenho minhas bandas e músicas preferidas de todos os tempos, que retornam periodicamente aos meus ouvidos – mas essas MiZtapes incluem poucas delas; foram elaboradas como compilações de coisas que estava descobrindo no momento, e que eventualmente me lembravam de alguma outra já conhecida, e assim em diante. Foram feitas para uso pessoal – sem nenhum objetivo de compartilhamento. Mas então porquê dividi-las agora? Por que de alguma forma elas falam sobre mim – sobre a sensibilidade do momento em que foram criadas, de forma mais ou menos expontânea, como entradas de um diário nunca escrito. Assim como os dias, há algumas de que gosto mais, outras que sinto bobas. Afinal todas as mixtapes, mesmo aquelas que são feitas como dedicação a outras pessoas, falam muito sobre quem as criou.

As coletâneas são uma mistura nem sempre homogênea de Soul, Funk, Garage, Indie e Jazz; há coisas óbvias e outras nem tanto; músicas velhas que parecem novas e músicas novas que parecem velhas. Na minha cabeça, compõem uma espécie de trilha sonora que poderia ser de um filme de Tarantino, David Lynch, Scorsese ou até Woody Allen em alguns momentos. Não são uma recomendação do que ouvir, muito menos uma seleção das minhas preferidas: é só aquilo que ouço, e que alimentam minha curiosidade.