O conto apresenta uma sequência de entrevistas fictícias feitas durante a pandemia em 2020. O título e formato do texto são inspirados no livro de mesmo nome do autor David Foster Wallace, publicado originalmente em 1999.

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EQ #7: O.P.S.
São Paulo, SP
Via Microsoft Teams

“Não é que eu seja a favor do que está acontecendo, é claro que eu tenho noção que tem muita trapalhada e até uma certa visão equivocada de algumas coisas, mas tem horas que a gente tem que decidir de que lado a gente tá, certo? Porque tem coisas que você não consegue evitar, você não foge das contas que tem que pagar, a prestação do apartamento continua chegando, a escola das crianças, o financiamento do carro e todo o resto. E lá na empresa já mandaram uns vinte e tantos embora desde que começou essa bagunça, e aí é a hora que você tem que escolher de que lado você tá: você prefere que a merda voe no ventilador e todo mundo se foda ou você faz a sua parte, toca sua vida e se vira do jeito que pode? É isso que eu quero dizer, ninguém tá falando que é legal morrerem cem mil pessoas e tal, mas morre gente todo dia não morre? Se morre sei lá quantas de acidentes de carro você vai fazer o quê, proibir a indústria automobilística? E tem aqueles montes que morrem nas favelas por causa do tráfico, vai fazer o quê, liberar as drogas pra geral? É isso que eu falo, você tem que escolher o lado das coisas certas, pagar seu apê, a escolas dos meninos, nessa hora ninguém pensa na gente. Você não vê ninguém sair na rua pra protestar dizendo, a vida do cidadão de classe média importa, certo?”

P.

“Eu tenho um padrão pra manter que eu conquistei com meu suor, certo? Não teve ajuda do governo nem vagabundagem, aqui foi trabalho. Não é fácil sustentar uma família nesse país. Você teria coragem de colocar seu filho numa escola pública? Além do risco do sujeito virar um bandido tem toda essa palhaçada de professorzinho de esquerda querendo pregar sermão pra criança, vê se dá. E eu li um artigo ótimo outro dia no LinkedIn falando justamente que se você parar pra pensar na escola você pode fazer um monte de amizade que vai alavancar sua carreira no futuro, eu vou querer meu filho estudando com bandido? Ou com o filho da faxineira, não tenho nada contra, mas o que o filho da faxineira vai poder ajudar meu filho no futuro? Eu não tive essa sorte mas agora você me diz, é pecado você querer o melhor pra você e pra sua família?”

P.

“Como é que eu ia dizer lá na empresa se morasse lá no cafundó do judas? Ou nesses apartamentinhos de quarenta metros quadrados, já pensou? Nesses dias tô cheio de calls no Zoom, por exemplo. Já pensou se eu morasse num muquifo, o que ia parecer pra minha equipe? Tem que impor respeito, certo?”

P.

“Tá todo mundo trabalhando mais que o normal, paciência. Sete horas da manhã já tô mandando email pro meu time, tem dias que até as nove da noite tamo em call ainda. Eu mesmo tive que mandar três embora, não é fácil isso. Mas eu falei com jeito, os caras entenderam, a empresa foi até legalzinha de manter o plano de saúde deles até o final do ano. É triste a situação, mas eu posso fazer o quê? A culpa é desses chinês comedor de porcaria, agora a gente tem que se virar como pode.”

P.

“Trabalhar de casa é um saco, certo? O barato de trabalhar numa empresa grande é justamente sair todo dia de casa e encontrar gente diferente, comentar a roupa das gostosinhas e sair pra almoçar com a galera. Tô sentido falta até do quilo safado que a gente ia quando tava acabando o ticket. Isso sem falar nas escapadas de happy-hour, né? Pra te falar a verdade até das piadas ruins do meu chefe to sentindo falta, o safado nem percebe que ninguém gosta e continua fazendo – ou ele faz porque sabe que a gente vai ter que rir mesmo, sei lá. Esse sim é um safado, certo? Eu tô só fazendo a minha parte.”

P.

“Eu dei um tapa aqui no escritório de casa, reparou que tem uns quadros novos aqui atrás? É pra parecer mais moderninho, haha. Às vezes eu faço os calls lá da mesa da sala pra galera ver o tamanho da sala e da TV, pra dar uma impressionada, certo? Mas a Michelle tá sempre passando atrás aí eu fico meio envergonhado porque parece que não respeitam o meu espaço, eu vivo dizendo isso pra ela mas ela fala que é por causa das crianças. Eu respondo dizendo que isso é culpa dela que não põe limite nos moleques, mas nem insisto nisso pra não virar uma discussão. Hoje em dia tudo que você fala vira ai como você é machista e tal. Puta saco.”

P.

“Ah, não é porque as crianças tão em casa que precisa virar uma bagunça, certo? Eu venho de uma educação bem correta porque meu pai era militar, então já viu. A escola deles é boa pra caramba, não é à toa que custa uma fortuna. Aí eles tão fazendo umas aulas on-line, mas quem cuida disso é a Michelle. Eu levava eles na escola de manhã, aí agora eu levo até a frente do computador e já tá de bom tamanho, acabo economizando um puta tempo pra usar no trabalho. Às vezes eles marcam umas atividades pros pais participarem mas eu não tenho tempo pra isso, certo?”

EQ #9: W.R.F.
Curitiba, PR
Via Facetime

“Alguma coisa tinha que ser feita, entende? No fim das contas aconteceu o que podia acontecer de pior, e você pode ter certeza que eu não estou nada feliz com o que estamos vendo aí. Mas eu nem gosto de me meter em política, acho que tem muita manipulação sendo feita de qualquer lado que você olhe, então eu prefiro ficar na minha. Agora se você olhar do ponto-de-vista estritamente econômico, não dava pra ficar do jeito que tava. Aquele déficit gigantesco, a bomba relógio da previdência, a máquina estatal emperrada… tava na cara que ia dar merda, os caras só foram empurrando com a barriga até onde deu. E teve o lance da corrupção também, puta que pariu mas perdeu toda a vergonha na cara. Aí fica difícil de defender, então alguma coisa tinha que acontecer. Na minha opinião de quem não se mete em política o erro, o grande erro foi no primeiro turno, se tivesse passado pro segundo alguém mais moderado com certeza a gente não ia estar na situação em que tá. Todo mundo sabia que ele era isso aí mesmo, essa tosqueira só, mas foi o que sobrou.”

P.

“Não é que eu não goste de política, entende? Eu só fico desconfortável, é tipo se meter em briga de marido e mulher, entende o que eu quero dizer? Você nunca sabe tudo que tem por trás, como é que você vai tomar partido? No final das contas cada um conta a história que quer e se coloca naquele papel de vítima, e você faz o quê? Eu prefiro não me envolver, já tenho coisas demais na minha vida pra me preocupar.”

P.

“Eu voto nulo já faz décadas, pra mim dia de eleição o que importa é o feriado, eu aproveito pra ir pra praia que eu ganho mais. No final das contas não faz diferença, você acha que algum daqueles canalhas lá de Brasília tá preocupados com a gente? Pode ter um que faz uma coisa boa aqui e outro ali, mas se você tirar a média ninguém se safa. Então eu nem esquento a cabeça, eu tenho ali a minha lojinha e ninguém vai pagar as minhas contas, entende? Eu já sobrevivi a quatro presidentes, não é esse que vai me derrubar.”

P.

“Ninguém gosta de ter um presidente que virou piada no mundo né? O sujeito fala demais, e acaba gerando mais polêmica do que precisava. Se tivesse só fazendo o que se propôs, já tava de bom tamanho. Porque se você perguntar a minha opinião, sem me meter na briga de casal, ele tava fazendo o que tinha que ser feito pro país voltar a crescer, entende? É isso que as pessoas esquecem. Eu sei que ele não ajuda, e agora com essa pandemia a coisa desandou de vez, mas fazer o quê? Não adianta ficar lamentando, agora é bola pra frente.”

P.

“Olha eu nem gosto de falar isso porque fica parecendo que eu não sinto pelas pessoas que morreram mas não é nada disso, é claro que não é legal tanta gente morrendo assim de uma hora pra outra. Mas é aí que a coisa fica toda misturada, porque você pode lamentar a morte das pessoas e ao mesmo tempo querer que as coisas voltem a normal, entende o que eu quero dizer? Só que do jeito que tá a coisa parece que você tem que escolher um lado, percebe?”

P.

“Eu não acho que tinha muito o que fazer, foi azar mesmo, esse país é assim, já começou tendo azar né, que foi ser colonizado pelos portugueses, haha. O que não pode agora é ficar essa queda de braço, tira o presidente, porra mais um? Tem que aceitar e seguir em frente, daqui dois anos tem eleição de novo aí a gente vê. O que não pode é voltar pra trás, economicamente falando, é isso que eu quero dizer.”

P.

“Tem essa coisa toda de ser um governo mais conservador, mas acho que isso faz parte. Eu não vou discutir aqui quem tá certo ou errado, eu me considero um liberal então pra mim cada um faz o que quiser, eu mesmo já fumei maconha e dei meus tiros quando era mais jovem, então cada um na sua desde que não atrapalhe a vida do outro. Mas fazer o quê, acho que alternância de poder é isso aí também, teve um período que a coisa era mais liberal e agora é mais conservadora. Não adianta ficar de mimimi também, tipo ai que absurdo ele pensar isso, o cara se elegeu, tem gente que concorda com ele nessas coisas também então deixa rolar.”

P.

“Eu acho que tem um retrocesso aí na questão dos investimentos em ciência né? Na cultura, demarcação de terras, eu tô acompanhando, não sou burro também. E na questão dos índios, dos negros e tal, mas aí começa de novo a radicalização, chamando o cara de fascista e o escambau, mas aí é exagero né?”

P.

“Olha, eu vou te dar um exemplo só pra você entender: eu tenho ali a minha lojinha né? Eu trabalho com material de construção, então toda hora entra gente ali, gente simples, entende o que eu quero dizer? Mas aí quando entra um assim, mais negrinho vamos dizer assim, é claro que eu fico mais de olho. É instintivo, percebe? Agora vai dizer que eu sou racista por causa disso? Aí já entra na briga política, tô fora.”

P.

“Outro dia eu tava lá na loja e entrou um senhor sem máscara, tipo uns sessenta e poucos anos, aí eu falei pra ele colocar a máscara, e você nem imagina. O sujeito se irritou de um jeito, começou a berrar que isso era uma paranóia da rede globo e sei lá que mais, agora eu te pergunto: quem colocou essa merda na cabeça dele? Política, né? Eu quero mais é que se dane, eu tô preocupado é em não pegar essa merda, é simples assim mas agora tudo ficou complicado né? Parece que estamos em guerra ou sei lá o quê.”

P.

“Eu deixei ele gritar, vou me meter com maluco? Só fiquei balançando a cabeça, eu nem vejo TV já faz mais de dois anos, só futebol porque ninguém é de ferro, vou me meter a defender ainda a Globo? Esse bando de maluco desenterrou essa paranóia de comunista né? Eu acho até engraçado falar de comunista em dois mil e vinte, tem gente que parece que parou no tempo, sabe como é? Fascista pra um lado, comunista pro outro, eu não me meto nessa confusão não.”

P.

“Mas tem que aceitar, fazer o quê? Eu também não gosto de ver dois gays se agarrando na frente do meu filho, mas tá no direito deles né? Eu sou super a favor dos gays e coisa e tal, mas tem gente que simplesmente não tem noção, então agora esse lado mais conservador tá tendo um pouco mais de voz, faz parte.”

P.

“Eu nem gosto de ficar muito pensando no futuro, mas tá na cara que não vai ser fácil. A lojinha ficou fechada quase um mês, mas mesmo depois que abriu não resolveu muito, sabe como é. Tem gente que ainda tá com medo de sair na rua, e tem todo esse povo que perdeu emprego e tal, então é claro que isso tá tendo um impacto. O que eu acho, e aí é um pouco de política que eu vou falar, eu acho que tinha era que acabar com esse clima de guerra no noticiário, a gente precisa é de um pouco de paz pras coisas voltarem pra normalidade, é isso que todo mundo quer né? Brasileiro é um bicho que só se fode mas não é de hoje, então vamos sair dessa também. Alguns vão sair num caixão, mas põe na conta dos chineses, fazer o quê. O importante é deixar de lado a politicagem e focar no trabalho que a coisa se ajeita.”

EQ #13: A.R.P.
São Paulo, SP
Via Twitter

“Fazia mais de dois meses que eu tinha adicionado ela no Tinder, mas foi só tipo depois de um mês de isolamento que deu match. Safada ou o quê? Sabe como é mulher, quando quer dar ninguém segura e aí acho que ficou na seca e resolveu correr atrás. Mas aí também não dei mole não, já saquei logo o que ela queria então também não fiquei de romancezinho, já fui logo no ponto e ela até quis se fazer de difícil e veio com uma história de ai que grosso mas no fim foi dobrando. Isso era tipo oito da noite e quando era umas dez já tava na casa dela, ela me fez tomar banho antes até de abrir o vinho que eu levei, aí quando saí do chuveiro pensei foda-se e fui logo pra cima, já tava sem roupa e limpinho mesmo, ela se fez de surpresa mas tenho certeza que gostou, tava na cara que era isso q ela queria.”

P.

“Não, ela não falou nada, eu que tô deduzindo. Antes da meia noite eu já tava na rua, deu tempo até de pegar o boteco aqui da esquina que fica aberto meio na clandestinidade pra tomar uma. Quarentena meu cú.”

EQ #21: V.A.L.
Niterói, RJ
Via Facebook

“O que eu acho mais engraçado é quando eu saio sem máscara na rua, fica todo mundo me olhando com uma cara de assustado, sabe como é? Bando de ovelha, na minha época a gente falava assim, se tá com medo não desce pro play, lembra disso? Sou saudável, passei a vida na praia surfando e jogando fresco, vou agora ter medo de uma gripezinha? Puta que pariu, eu fico de cara com esse clima de fim de mundo que conseguiram criar, coisa da porra da rede globo e dessa mídia golpista. Tão achando que criando terror vão conseguir tirar o capitão, mas tão achando errado, otários! Aqui é Brasil, porra. Bando de comunista baitola da porra, dominaram o Brasil por décadas e agora que perderam tão achando que vão aproveitar essa histeria pra conseguir voltar. Mas não conseguem me enganar não, se você souber ler as informações certas vai ver que tem toda uma manipulação aí pra criar um pânico. Mas o brasileiro não é trouxa não, a maior parte não caiu nesse truque. Inventaram esse lance aí pra dizer que eles são setenta por cento, eu não caio nessa não. Nós é que somos muito mais de cinquenta por cento, é só você perguntar por aí. O brasileiro acordou.”

P.

“Tá na cara que tem uma armação rolando aí, esse congresso nojento e esses bandidos do STF. Também, os caras tão aí desde sempre, sabe como é? Agora tão vendo que vão perder a mamata, que as coisas tão mudando e tão se cagando de medo. Os caras já se ligaram que agora não é só da boca pra fora, agora tem apoio do exército, da polícia militar e o escambau. Agora a chapa esquentou.”

P.

“Eu não parei de trabalhar um puto de um dia desde o começo da pandemia, e nem por isso peguei nada. No começo foi foda porque não tinha quase ninguém na rua e pra que serve um taxista se não tem ninguém indo pra lugar nenhum? Mas eu continuei saindo e aos poucos a coisa foi melhorando. No meu ramo de negócio eu pego todo tipo de gente, pego executivo, maconheiro, puta e traficante, tô nem aí. Então você imagina que passou todo tipo de pessoa no meu carro nesses meses e não peguei nada? Daí você tira que tem alguma coisa mal explicada nessa história.”

P.

“Aí outro dia eu peguei esse casal de pretos ali na Lagoa, e quando eu digo preto pode imaginar passado da meia noite, sabe como é? Aí os dois neguinho começaram de melação e eu já fiquei meio assim – não tenho nada contra gay, nem contra preto, mas incomoda, fazer o quê? Agora o que pegou mesmo foi que um deles começou a falar de uma notícia que ele tinha lido sei lá onde descendo o pau no governo, aí meu sangue ferveu. Aí eu falei pra eles – você são muito do mal agradecido, tem alguém impedindo aí de fazer essa sem-vergonhice de vocês? E não tão com problema de dinheiro também, andando de táxi pra cima e pra baixo. Então esse é problema, sabe como é? Povinho fica se fazendo de vítima porque agora as coisas não são mais fáceis pro lado deles.”

P.

“Olha, vou te dar a real: eu continuei saindo porque precisava trabalhar, claro, mas também porque eu não sou homem de ficar em casa. Se eu fico lá duas horas a Cleide já arruma alguma coisa pra eu fazer, e eu acho isso um saco. Aí a gente acaba discutindo e eu tenho essa mania de falar meio alto, aí os vizinho tudo já fica espalhando fofoca de briga, sabe como é? Então eu deixo ela lá com a casa e vou fazer meu esquema que eu ganho mais.”

P.

“A Cleide até prefere também, esses esquerdista arrombados que inventaram essa história de direitos iguais, a Cleide tá felizona com os direitos dela, eu boto comida em casa e ela cuida do resto, simples assim. A única coisa que a Cleide reclama é que agora que a gente não vê mais a Globo as novelas são muito ruins, mas eu não deixo mesmo, nisso sou irredutível. A gente tem que manter a saúde mental, sabe como é?”

EQ #22: M.F.T.
São Paulo, SP
Via Linkedin

“Temos à nossa frente uma oportunidade única de evolução da humanidade, baseada nos valores do empreendedorismo e na cultura descentralizada. O novo normal será construído com os méritos daqueles que ousarem se arriscar.”

P.

“ESPM com pós-graduação na FGV, e o segundo grau no Bandeirantes. Mas não entendi a sua pergunta.”

EQ #29: E.S.
São Paulo, SP
Via telefone

“A coisa que eu mais gostei foi poder ficar olhando a cidade passar, como se fosse um filme. No ônibus é diferente, né? Porquê fica parando o tempo todo, toda hora senta e levanta gente, então você se distrai com outras coisas. Eu nunca tinha andado no banco de trás com motorista, achei chique demais. No começo me incomodei um pouco porque eu não sabia o que falar com o motorista, né? De cara achei que ele tava me tratando meio com desprezo como se eu não tivesse que estar ali e…”

P.

“Ah, pela minha cara né? Ele me pegou na minha casa ali em São Mateus, então claro que ele se ligou que não era eu que tava pagando aquela corrida né? Eu digo que a única vez que eu tinha andado de Uber foi quando meu marido precisou fazer uns bicos e pegou o caro emprestado do primo dele, aí eu brincava com ele que eu tava andando de Uber. Mas dessa vez foi diferente, porque eu me senti chique e respeitada, mas no começo foi estranho. Mas aí o motorista puxou conversa e contou da família dele que morava lá em Embu, e ele tava dividindo um quarto com o irmão pra não parar o trabalho mas também fazia tempo que não via a família pra não colocar eles em risco. Fiquei com dó, mas é engraçado como quando a gente conversa percebe que a vida da gente é parecida, né?”

P.

“Minha patroa mandou o carro me pegar porque já fazia quase três meses que eu tava sem ir, não sei nem como eles conseguiram se virar esse tempo todo. Na primeira semana ela mandou um zap dizendo que o seu Jorge tava com umas feridas na mão, aí eu perguntei o que ele tinha feito e ela contou que ele que tinha que lavar os banheiros, aí eu entendi tudo. Não dá mesmo pra imaginar a dona Denise de quatro limpando o chão do banheiro, mas aí ela contou que ele tava usando a cândida sem diluir, você acredita? Aí tava com a mão toda rachada, ela mandou até uma foto. Eu achei graça mas não ri, né? Respeito. Só expliquei como tinha que ser feito. Mas isso foi na primeira semana, ela continuou pagando minhas diárias mesmo sem eu ir no primeiro mês, mas aí no segundo ela disse que precisava cortar pela metade, afinal de contas ela não podia continuar pagando uma coisa que não tava usando né? E com toda essa crise não tá fácil pra ninguém. Achei bondade da parte dela oferecer pagar metade ainda, a dona Denise tem um coração bom, né? Aqui apertou um pouco porque meu marido trabalha no Ceasa e pegou o Covid, então ficou quase um mês sem trabalhar, e aí ficou sem ganhar também. Mas agora graças a Deus já passou, ele voltou pro trabalho mas tá dormindo num quartinho separado pra não correr risco. Nunca se sabe. Então quando a dona Denise sugeriu de eu voltar pelo menos algumas vezes na semana achei bom. A vida precisa voltar ao normal, né? Apesar do trabalho do Joatan lá no Ceasa, eu que sou meio que o homem da casa, né? Então eu tive meu dia de patroa olhando a cidade passar pela janela, nunca tinha percebido como a paisagem muda tanto da minha casa até o Morumbi. Também são quase duas horas de viagem, é outro mundo mesmo.”

P.

“Isso foi nas primeiras duas semanas, aí na terceira ela não queria mais porque o Uber ficava caro, então eu me ofereci pra voltar a ir de ônibus, fazer o quê? Tomando todos os cuidados, é claro, mas não acho nada demais também. Desde que meu marido se recuperou que eu tenho falado pra todo mundo que a vida não pode parar. Se a gente pegar vai se tratar, o que não pode é usar isso como desculpa pra fugir do trabalho, né?”

P.

“Ai eu nem me meto muito nessa coisa de política porque eu não entendo muito, né? Eu votei nele porque não dava mais pra aceitar aquela sem-vergonhice toda, deusolivre. O seu Jorge diz que a coisa vai melhorar assim que o Covid passar, e eu acho que ele entende mais dessas coisas do que eu. Eles entendem dessas coisas de política e de economia, eu entendo de cuidar da casa e de cuidar deles porque você já viu né? Se não fosse eu não sei o que seria deles.”

EQ # 38: A.K.W.
Recife, PE
Via Whatsapp

“Não me entenda mal, é lógico que eu gosto de ficar com os meus filhos, senão nem tinha tido. Eu nunca fui o tipo de pessoa que quer uma babá cuidando do meu filho o tempo todo, acho isso um horror. Aqui em casa a gente teve a Neide cuidando dos gêmeos quando eram bem pequenos, porque era bem difícil pra mim conciliar o trabalho com as coisas das crianças. O Roberto ajuda, mas sabe como é homem né? Parece que nasceu sem esse neurônio no cérebro, esse talento de fazer as tarefas mais simples do dia-a-dia. Bom, se tem algum que saiba eu não conheço, kkk.”

P.

“Mas assim, aqui entre nós tá? Eu nunca tinha passado tanto tempo com as crianças, pelo menos não desde que eu voltei da licença maternidade. E no começo tinha a Neide, depois teve a escola, então sabe como é. Mas agora… putaquepariu, eu acho um puta de um saco. Meu pai sempre dizia que eu era meio homem e até ficou surpreso quando eu decidi ter filho, ele falava que eu não ia ter paciência. Mas até aqui eu meio que me virei bem, eles já tão com quatro e tava indo tudo super bem. Mas aí como faz com essa rotina? Eles continuam tendo aulas só que on-line, e aí acaba que sobra pra gente compensar o que tá faltando. Os professores deviam dividir um pouco do salário deles com a gente, eu pensei isso outro dia, afinal de contas a gente tá fazendo parte do trabalho deles.”

P.

“Isso sem falar na energia deles né? Lá na empresa decretaram que agora vai ser home-office até dezembro, então eu não tenho a menor ideia do que vou fazer até lá. Porque eles correm e brigam e xingam e choram e cagam e choram de novo e eu no meio de um call importante com a porra do diretor regional discutindo a estratégia de preço, dá pra imaginar? É claro que por causa da minha posição todo mundo me respeita, então se eu interrompo às vezes pra dar um esporro nos moleques as pessoas acham até engraçado, mas eu me sinto meio mal, você entende?”

P.

“Ah o Roberto é homem e homem… bom, já falei. Mas também ele tá numa fase difícil, essa crise pegou o negócio dele em cheio e ele passa o dia resolvendo pepino, já teve que mandar mais de cem embora e ainda vem esquerdista reclamar, como se ele pudesse fazer alguma coisa. Aí ele fica muito irritado, você precisa ver o nível de estresse que ele tá. Também ele não sai daquele Facebook, fica postando coisas a cada três minutos, e vira e mexe se mete numas discussões que ele grita até em voz alta. Outro dia eu tava num call discutindo a estratégia de distribuição na Colômbia e ele gritou – enfia no cú a porra do feminismo e rolou até um certo constrangimento na ligação, mas todo mundo fingiu que nem ouviu.”

P.

“Ah, claro que eu fiquei bem chateada né, mas o pior é que eu sabia exatamente com quem ele tava falando e no fundo eu gostei dele ter falado desse jeito. Porque hoje em dia tem um patrulhamento que não dá pra aguentar, gente querendo cagar regra e dizer o que é certo e o que é errado, que coisa insuportável. Outro dia eu discuti até com uma professora porque eu ouvi ela dando uma bronca em um dos gêmeos porque ele tava falando no chat com uma das meninas da sala e a professora brigou porque tava tirando a atenção, mas eu fiquei muito puta – se meu filho não pode fazer uma azaraçãozinha no meio da aula pra que serve a escola? Ninguém tá ali só pra aprender matemática, você concorda comigo?”

P.

“Eu só espero que o Roberto não tenha um infarto, porque aí a gente ia ter que ver como ir pro hospital sem cruzar com essa gente toda com Covid, não quero nem imaginar a dor de cabeça. O que eu não vejo mesmo é a hora disso tudo acabar pra eu poder delegar um pouco da minha vida de novo.”

EQ # 41: R.L.M.
Ribeirão Preto, SP
Via Facebook

“Parecia que eu tava dirigindo no meio de um filme de Hollywood sobre o fim do mundo, tá ligado? Eu gosto de começar a trabalhar logo cedo pra não ter que virar madrugada, então tinha aquela luz de outono caindo nas ruas completamente vazias, parecia que não tinha mais ninguém no mundo. Eu tirei um monte de foto pra postar no meu Instagram mas acabei esquecendo, eu não sou muito dessas coisas. No começo foi bem difícil porque nas minhas contas eu tenho que fazer umas vinte corridas pra começar a valer a pena, e nesse período eu não fazia nem dez. Então eu ficava dirigindo pela cidade vazia e esperando, e pensando um monte de merda, tá ligado? Merda merda merda mesmo, tipo será que vale a pena viver e tal. Mas aí um dia eu recebi um chamado de um professor ali da universidade e quando ele entrou no meu carro sem máscara eu já percebi que ali tinha coisa.”

P.

“Ele tinha um jeito meio seguro, sabe como é? Não é que ele quisesse me desafiar nem nada assim, ele só estava tranquilo de estar sem máscara, e olha que eu tava levando ele lá no centro da cidade, que nessa altura já tava quase todo aberto. Aí eu não aguentei e perguntei pra ele se ele não tinha medo de pegar o vírus, se ele já tinha tido. Aí ele só respondeu, eu tenho medo de muita coisa pior, mas isso aí vai passar. Aí eu perguntei pra ele o que ele queria dizer.”

P.

“Você acredita que ele não falou nada? Olhou pra mim e depois olhou pra fora e continuou o resto do caminho em silêncio, e eu fiquei com vergonha de perguntar de novo. Então eu deixei ele ali na praça quinze de novembro e ele deu um sorriso simpático e até depois me deu cinco estrelas e uma boa gorjeta, mas me deixou com aquilo na cabeça, tá ligado?”

P.

“Aí eu fiquei doido né? Comecei a dirigir pela cidade sem rumo, como não aparecia chamada nenhuma fiquei com aquilo me martelando a cabeça. Eu tenho medo de ficar sem dinheiro, medo de não ter comida pros meus filhos, medo de violência, né? Então eu fiquei pensando se era isso que ele queria dizer, ele tinha cara de professor da universidade então devia saber do que tava falando. Mas o que eu achei mais maluco é que ele podia ter ficado me dando o maior sermão sobre o que quer que ele quisesse dizer, mas ele preferiu ficar quieto. Achei isso de uma sabedoria incrível, porque tá todo mundo de saco cheio de polêmica né? Mas ele me fez pensar que nessa situação toda a gente não para de pensar no que é realmente perigoso, tá ligado? Tipo, é claro que ninguém quer morrer sem conseguir respirar e tal, mas a gente tem que correr os riscos pra não deixar o resto todo desmoronar né? Vai morrer quem tiver que morrer e quem tiver aí vai ter que tocar a vida, é tipo Darwin, tá ligado?”

P.

“Mas aí eu já não posso fazer nada, né? Cada um com seus medos, é nisso que eu acredito agora.”

EQ #49: (Desconhecido)
São Paulo, SP
Ouvido sem querer pela parede no apartamento

“Você sabe que se dependesse de mim eu já tinha saído desse apartamento faz tempo. Mas eu não posso sair correndo pra achar um lugar no meio da porra da pandemia, você concordou com isso. Então a gente tem que manter essa situação o mais tranquila possível, mas você não tá ajudando.”

P.

“Essas coisas que você fica postando no Instagram, você acha que ninguém vê? Aí depois vem todo mundo comentar comigo, tipo o que tá acontecendo com tua mulher? Aí eu fico desconversando, outro dia aquele cara lá que faz Crossfit com a gente quis até tirar satisfação, como se eu concordasse com você. Eu falei pra ele que quem pensava aquilo era você, que eu tava de boa e tal.”

P.

“Mas fica uma situação ridícula, porra. Tem gente do trabalho, gente da família, uma galera que te segue por minha causa e agora tem que ver esse tipo de coisa. Esse post mesmo que você publicou ontem, feminismo, racismo, de onde você tira essas coisas? Eu sei que você tem essas amigas todas progressistas, bando de solteiras mal-comidas da porra, é daí que vem? Mas você nem pensa no que isso pode me prejudicar, é um puta egoísmo da sua parte.”

P.

“Egoísmo meu? Porra aí você tá passando dos limites. Você acha que pode dizer o que quiser mesmo sabendo que pode me prejudicar e eu tenho que aceitar? Isso não é liberdade de expressão, isso é tipo censura só que ao contrário sacou?”

P.

“Você tem toda a porra do direito de mudar de opinião e de falar sobre isso, eu até agora não entendi o que aconteceu nessa quarentena pra você mudar tanto, antes a gente concordava em quase tudo e fomos até juntos nas manifestações em dois mil e dezesseis, agora não sei o que deu em você.”

(Várias frases incompreensíveis de ambos os lados)

“Eu que não vejo a hora de ligar pra todo mundo que me deu bola esses anos todos, tem um monte de mina que ficava pagando pau nas tuas costas enquanto eu esperava você sair do banho. E você vai lá se meter com esses esquerdistas barrigudos e brochas, que é o que você merece.”

EQ # 55: J.M.B.
Brasília, DF
Via Facebook e trechos de entrevistas na imprensa

“Pior que a dor da derrota, é  a dor da vergonha de não ter lutado. Nossa missão é defender a Pátria, a nossa Liberdade e os interesses da maioria do nosso povo. O que adversários apontam como autoritarismo do governo e de seus apoiadores não passam de posicionamentos alinhados aos valores do nosso povo, que é, em sua grande maioria, conservador. A tentativa de excluir esse pensamento do debate público é que, de fato, é autoritária. Vale lembrar que, há décadas, o conservadorismo foi abolido de nossa política, e as pessoas que se identificam com esses valores viviam sob governos socialistas que entregaram o país à violência e à corrupção, feriram nossa democracia e destruíram nossa identidade nacional.”

P.

“Ao lado disso forças nada ocultas, apoiadas por parte da mídia, açoitam o Presidente das mais variadas formas para deslegitimá-lo ou atrapalhar a governança. ‘Tem misericórdia de mim, ó Deus, pois os homens me pressionam; o tempo todo me atacam e me oprimem. Os meus inimigos pressionam-me sem parar; muitos atacam-me arrogantemente. Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti – SALMO 56’”

P.

“Não se cansam de tanto mentir. Querem dinheiro como antigamente. Não terão. Muito do que tem ali é muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga. Não estou acreditando nesse número. Tem um estado aí que orientou por decreto que, em última análise, se não tiver uma causa concreta do óbito, bota lá coronavírus para colar.”

P.

“A população quer trabalhar para colocar comida nas mesas das casa de suas famílias. O desemprego, a fome e a miséria será o futuro daqueles que apoiam a tirania do isolamento total. O cenário é preocupante. Uma economia devastada afetará diretamente na saúde. Se verdadeiramente prezamos pela vida e bem estar, devemos evitar um desastre ainda maior que o vírus. Vidas e comida na mesa andam juntos! O exército de desempregados cada vez aumenta mais. O caos se aproxima?”

P.

“O caos só interessa aos que querem o pior para o Brasil. Nós somos acostumados a superar as adversidades. Na tempestade, ajudamos uns aos outros. Somos uma nação de irmãos. Nenhum vírus é mais forte do que o nosso povo. Estamos lutando e faremos o que for necessário para proteger a vida de cada brasileiro! Até porque o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali. Ele sai, mergulha e não acontece nada com ele. A vida continua, não tem que ter histeria.”

P.

“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”

EQ #57:  🤠🤑
Localização não identificada
Via Whatsapp

🇧🇷🇧🇷🇧🇷👉👉😎😎

P.

👨‍👩‍👦‍👦💰🙏🙌☝️

P.

🤷‍♂️🤒😷☠️😭

P.

🤡👻✊👊📈

P.

Mimimi 🤣

EQ # 59: Z.P.
São Paulo, SP
Auto-entrevista

“Eu gostaria de dizer que tenho alguma esperança, mas seria mentira. Não quero nem dizer aquela esperança tipo, putz eu tô super empolgado com o que vem por aí, mas pelo menos uma esperança do tipo vamos ver o que acontece – mas nem isso. Quando a quarentena começou apareceu um monte de mãe diná moderninha pregando que o isolamento ia criar um novo tipo de pensamento mais humanitário e tal, baseado em solidariedade e empatia e blablabla, e até criaram essa expressão grotesca chamada novo normal, que eu acho bizarra porque a palavra novo só se usa nesse contexto de melhoria dentro de uma estrutura capitalista/ consumista, tipo meu novo carro, minha nova casa e meu novo emprego – até quando a pessoa que se divorciou por exemplo quer dizer que está pronta pra novas experiências de consumo afetivo e interpessoal, mas os sentimentos mesmo não existem tipo um novo amor ou uma nova solidão, então não me venham com expressões marqueteiras.”

P.

“É mais ou menos como jogar um monte de gente na cadeia sem dar nenhum tipo de apoio e depois reclamar que eles se filiaram a uma facção criminosa. Eu acho que falhamos miseravelmente, não eu nem você individualmente, mas falhamos como coletivo em dar algum tipo de esperança pra essa gente. Não quero nem dizer esperança tipo você vai ficar rico e tal, mas um tipo de esperança mais tangível de que tem alguém se preocupando com você e a vida afinal vai melhorar. Mas aí tem esse monte de gente desamparada e frágil que nem sabe que está sendo usada como bucha de canhão e que passou a quarentena destilando esse ódio, e que quando as coisas voltarem ao normal a gente vai estar preocupado em retomar o dia-a-dia e nem vai perceber que esse monte de zumbis continua andando por aí, se alimentando do cérebro de outros desamparados, enquanto nós estamos aqui achando que a revolução é possível. Somos bem menos de setenta por cento, enquanto a esmagadora maioria permanece quieta, minúscula frente à banalidade do mal que se avizinha.”

P.

“Não me entenda mal, eu não quero ser injusto nem nada porque é claro que tem muita gente que de fato vai sair diferente dessa experiência e pode ser que isso provoque alguma mudança. Talvez seja só ansiedade da minha parte, porque é difícil ver coisas boas acontecendo enquanto estamos aqui isolados e de certa forma sozinhos.”

P.

“As boas ideias podem até ser concebidas na solidão, mas amadurecem e crescem no coletivo. E quando se tornam coletivas elas viram festa, alegria, carnaval. As ideias do mal, ao contrário, são aquecidas no forno sufocante do isolamento enquanto são fermentadas na espuma ácida do medo. E quando ganham as ruas viram ditadura, tristeza e guerra.”