Não fui eu que inventei o Brasil!
(Doutor Sílvio, personagem de “Construção”)
Um homem se joga do alto de um prédio em construção. Essa cena, inspirada na música homônima de Chico Buarque, desencadeia o drama nesse texto inédito de Zé Pereira. Sem conhecer ainda o destino trágico desse homem, mas insatisfeitos com demissões realizadas na obra, um grupo de operários decide entrar em greve e ocupar o prédio em que trabalham. Isolados durante as semanas que se seguem, os trabalhadores descobrem a liberdade de usufruir do que lhes foi alienado e vivem o esboço de uma nova ordem comunitária. Mas conforme o tempo passa crescem as pressões dos patrões e da opinião pública, assim como os conflitos internos. “Construção” é uma metáfora ao mesmo tempo atemporal e profundamente atual sobre o país. Panfletária por opção, esquizofrênica por genealogia, antropofágica por vocação – como o Brasil.
“Construção” foi vencedora do 9º CONCURSO NACIONAL DE DRAMATURGIA: PRÊMIO CARLOS CARVALHO, organizado pela Coordenação de Artes Cênicas da Secretaria Municipal da Cultura e Economia Criativa da Prefeitura de Porto Alegre.
Cada um de nós às vezes esquece que nos tornamos pequenas peças dessa engrenagem maior que alimenta alguns poucos. Essa máquina de destruir almas não foi criada hoje, foi refinada com requintes de crueldade ao longo de séculos. Enquanto chamam assassinos de desbravadores, mercenários de empresários e farsantes de santos, nos preocupamos em manter girando nossas rodas dentadas, mordendo os vizinhos lubrificados pela espuma gosmenta da raiva, da inveja e do medo. Principalmente do medo.
(Joana, personagem de “Construção”)