Um homem reflete sobre o fim de seu relacionamento, em meio a lembranças íntimas e políticas. “Futuro mais-que-imperfeito” foi publicado na coletânea de contos “Da substância dos sonhos e outras periferias”.

“Eu poderia falar sobre o cinismo”, pensou, lembrando que sua vontade era escrever sobre Irene, sobre seus cabelos loiros e sua voz trêmula. Mas sabia que para falar de Irene teria que falar de tudo – menos de seu cabelo e sua voz.

Serviu-se uma dose orgulhosa de rum trazido de Cuba. Bebeu puro, engolindo o fogo que deveria cuspir, tentando assassinar aos poucos o resto de vontade que ainda lhe sobrava. Sentou-se novamente e o papel continuava ali, em sua ofuscante indiferença.

Foi neste momento que sentiu a presença de Irene, sentada a seu lado com as pernas levemente inclinadas e a cabeça baixa em sinal de timidez. Poderia abraçá-la, mas apenas a encarou como o goleiro encara a bola antes do pênalti.

“Você poderia começar contando como nos conhecemos”, Irene poderia sugerir, e ele responderia que foi em um bar em Pinheiros em julho de 82. Lembrava-se com exatidão porque havia sido logo depois da Tragédia do Sarriá, logo depois que a bola desviada em Paolo Rossi eliminaria o Brasil da Copa. Estava tão obcecado por essa derrota que enxergava nela um mau presságio para o próprio país, e quando encontrou Irene no bar vestindo uma camisa oito na qual se lia “Democracia Corintiana” viu-se irremediavelmente apaixonado. Explicou com detalhes sua teoria sobre um novo ideal de país representado por aquela seleção, feito de irreverência e atrevimento, e como a vitória da Itália era a vitória da objetividade e da burocracia. Ela riu e disse apenas: “Mas o mundo é assim”.

Irene era assim. “Idealista pragmática”, como ela se definia, o que ele considerava uma contradição de termos. Discutiriam muitas vezes sobre isso.

Quanto tempo fazia que estava ali? Quanto tempo se passara desde aquele encontro em um bar em Pinheiros? Já começa a ficar escuro e o tempo derrete como suor em suas mãos. Ele olha na direção da cozinha, de onde vem a única luz no apartamento pequeno e abarrotado de livros e dvds. Irene está encostada no batente, os longos braços finos cruzados sobre o peito nu. Ele não sabe dizer há quanto tempo esta imagem está ali.

Talvez ele possa começar pelo fim – contando como moravam em Brasília e Irene era uma assessora de alto escalão do Ministério da Educação quando os escândalos começaram a estourar. Fazia anos que haviam feito um pacto de silêncio sobre seus trabalhos no governo, desde que discutiram sobre uma oportunidade que Miguel teve de assumir um cargo de confiança no Banco do Brasil. Mesmo depois de anos no banco e na militância, preferiu recusar e permanecer em uma posição que acomodava suas necessidades materiais sem exigir demasiada ambição. Ela, por outro lado, largou cedo o trabalho de professora para se engajar no sindicato, nas greves e ao final no governo. Comemoraram o convite para o Ministério como quem comemora um gol, parecia que o Brasil de 82 havia sido campeão, um acerto de contas com a história! 

Irene está agora sentada sobre uma pilha de livros, enquanto enrola bem devagar uma mecha do seu longo e cacheado cabelo loiro com a ponta dos dedos. Ela o olha com desaprovação – “Mas este não foi o final. Se você quer falar sobre o final, conte direito”.

Miguel olha o papel branco como quem procura um espelho, mas um tipo curioso de espelho que não reflete o presente, mas sim o futuro. Miguel quer enxergar no papel as glórias futuras da sua obra-prima, os afagos, os elogios, o reconhecimento antecipado de sua genialidade discreta. Mas quanto mais ele encara o papel em busca desse futuro, mais enxerga o passado, como se não existisse distância entre esses dois tempos. 

De frente para esse espelho distorcido Miguel enxerga a cena final mais ou menos assim:

PRIMEIRO ATO

(Miguel entra em cena correndo, vestindo um calção largo demais e um nariz de palhaço verde-amarelo. Irene está arrumando as malas enquanto cantarola “Bye Bye Brazil”)

MIGUEL: Você sabia de tudo?

IRENE: Não cabia a mim saber ou não saber.

MIGUEL: Então você concordava.

IRENE: Não era meu papel concordar ou não concordar.

MIGUEL: Mas você traiu tudo aquilo que a gente acreditava!

(O público ri e aplaude, percebendo que o palhaço era ele)

SEGUNDO ATO

(Irene fecha a mala e anda na direção da porta)

IRENE: Não, Miguel! Pra não trair nossos ideais eu tive que trair você! Eu tenho um amante!

(O público faz um sonoro “Ohhhh”, incrédulo. Miguel cai de joelhos)

MIGUEL: Ai de mim!

IRENE: Não me venha com sua auto-piedade, Miguel! Eu me cansei do seu medo. Você sempre disse que queria ser escritor, mas nunca se arriscou a começar de verdade. Você queria fazer a revolução da sua cama, sem sujar as mãos ou a consciência. No fundo você é um arrogante, alguém que se acha superior porque acha que já viu o futuro e só isso basta, como se ele não precisasse ser construído. Você quer um futuro sem presente nem passado. Enquanto você se esconde em sua utopia as pessoas passam fome, são escravizadas e humilhadas. Nós estávamos construindo um novo futuro, mas isso tinha um custo. O nome do meu amante é Luiz Inácio, mas você pode chamá-lo de Grande Mentiroso. Eu posso chamá-lo de Grande Paradoxo!

(Cai o pano)

TERCEIRO ATO

(Miguel está sentado em uma mesa, em frente a um papel em branco. Ele encara a plateia estarrecido. O foco de luz sobre ele diminui lentamente enquanto sobe a música de fundo, “Deus lhe pague”). Blackout. FIM.

Miguel tentou esquecer esta cena milhares de vezes. Depois se esforçou para reencená-la, inserindo detalhes não ditos ou nem pensados. 

Ele se levanta e pega novamente o rum em suas mãos, lembrando da última viagem que fizeram pelo interior de Cuba, onde tudo parecia mais ingênuo e definitivo. Irene se senta então em seu lugar à mesa, em frente ao papel em branco. Tem os cabelos e os olhos úmidos. Ele pode ouvir sua voz trêmula: “Eu vou sempre amar você, Miguel. De certa forma, é só sua inocência que poderá nos salvar, se você conseguir deixar de lado seus medos e os delírios de grandeza que te paralisam. A revolução se faz em cada verbo, mas você precisa aprender a conjugá-los de uma nova forma”.

Ela pega a caneta sem tirar os olhos dele, e mancha o papel branco com a primeira frase:

“Eu poderia falar sobre o cinismo”.


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