Uma viagem de Harley-Davidson de Nova York à centenária destilaria Jack Daniel’s, no Tennessee. Ou uma viagem em busca da pureza – e não só como metáfora


(Texto publicado originalmente na revista Viagem e Turismo)

O gole de Jack Daniel’s desceu quente pela garganta, percorrendo um caminho tortuoso até encontrar um repouso no meu estômago ainda embrulhado com os acontecimentos dos últimos dias. Acho que foi no percurso desse gole que a ideia surgiu, inesperada e arrebatadora.

Faz quinze anos que vivo intensamente a publicidade, e pela primeira vez eu estava pensando seriamente se estava no caminho certo. Eu me sentia cansado de uma série de vícios dessa profissão: muita forma e pouco conteúdo; muita aparência e pouca essência.

Nesses momentos, é comum procurar respostas em peregrinações, movidas por uma busca concreta ou simplesmente por uma intuição, um cheiro do caminho a ser seguido. Meu sócio decidiu percorrer o Caminho de Santiago, cuja mística transcende a tradição puramente cristã. Mas eu precisava de uma experiência mais visceral; e quando aquele gole escorreu por minha língua, a vontade ganhou forma: ir conhecer a destilaria de Jack Daniel’s, no meio do Tennessee, EUA. Sair de Nova York dirigindo uma Harley-Davidson, e cruzar o país de norte a sul até Lynchburg, onde fica a destilaria, passando por sete estados e percorrendo mais de 1.500 kilômetros.

Porque Jack Daniel’s? Porque numa Harley? Eu não tinha essas respostas. Sabia apenas que estava partindo em busca de algo selvagem e primitivo, deixando pra trás o perfume asfixiante do ambiente em que vivia.

Me parecia curiosa também a ideia de sair de Nova York, a cidade mais cosmopolita do mundo, e me enfiar no obscuro interior norte-americano até uma cidade minúscula. Era também uma viagem de regressão no tempo, deixando pra trás os neons, o hype e a miscigenação cultural até chegar ao coração cru da América.

Alugar uma moto não foi a parte mais complicada. A Eaglerider aluga diversos modelos em dezenas de cidades dos EUA e do mundo. É possível devolvê-la em outro destino, e todo o procedimento de reserva pode ser feito online.

Aluguei um modelo Fat Boy, mais pela simpatia do que pelo conhecimento técnico – é o modelo usado em O Exterminador do Futuro e outros tantos filmes. Não sou um grande conhecedor de motos e nunca tinha dirigido uma moto desse tamanho, muito menos feito uma viagem tão longa. Na verdade, não tinha feito viagem nenhuma com uma moto desse porte.

Bom, se você também nunca dirigiu uma moto dessas, eu posso dizer uma coisa sobre a Fat Boy: ela é grande. E pesada. E barulhenta: ela ronca e se mexe embaixo de você como um bicho com vontade própria, e leva um tempo até você aprender a conduzir essa dança com tranquilidade. Quando isso começou a acontecer eu lhe dei um nome: Sharon. Pareceu-me um nome apropriado para uma cavala norte-americana de peito volumoso e quadril fino que me acompanharia pelos cantos obscuros do seu país.

Era o meio da tarde de um dia extremamente quente no verão nova-iorquino, e eu tive que cruzar a cidade inteira até pegar a I-78. O trânsito em Manhattan é insuportável, e o motor da Fat Boy esquentava minhas pernas a ponto de quase queimar quando eu ficava muito tempo parado. Era como se Sharon estivesse querendo me testar, dizendo: “pule daqui enquanto é tempo”. Então a primeira parte da viagem foi ligeiramente desagradável, e quando finalmente cheguei na estrada a sensação de alívio foi intensa; e pude finalmente acertar as contas com Sharon: “Ei, vamos passar muito tempo juntos e nesse período você é tudo com que posso contar. Então tente ser um pouco mais suave daqui pra frente”. Acelerando finalmente a uns 140 km/h, ela pareceu entender o recado.

A maior parte da viagem é feita pela I-81, que  cruza o país do nordeste até o meio-leste americano, onde começa o Tennessee. Eu não tinha um plano muito preciso de paradas; a ideia era dirigir até cansar ou escurecer. Minha vontade era escolher sempre a menor cidade possível, e de preferência um motel velho e obscuro, com algum bar estilo True Blood nas redondezas. Isso nem sempre foi possível, já que as cidades nas margens da estrada, mesmo as menores, eram bastante desenvolvidas e organizadas.

Quando cheguei em Harrisburg, capital da Pennsylvania, já começava a escurecer e escolhi o primeiro hotel que vi pela frente. Depois de um banho, fui em busca de um lugar pra comer e beber algo.

Perto do hotel havia um típico bar do interior, com letreiros de neon, uma jukebox colorida, mesas de bilhar e TVs reprisando os jogos de beisebol do final de semana. Não estava muito cheio, e as poucas pessoas sentadas no balcão não falavam muito entre si. A garçonete, chamada Sandy, parecia saída de uma cena de Fargo ou algum filme dos irmãos Coen: alguns quilos acima do peso, o cabelo mal arrumado em suas mechas vermelhas e uma simpatia algo melancólica. Ela pegou meu pedido com um sorriso padronizado, enquanto seus olhos denunciavam um cansaço acumulado de dias.

Era pouco antes das 11 da noite quando todos do bar foram embora. Fiquei sozinho com uma caneca gigante de cerveja ruim e com Sandy, que se animou um pouco ao saber que eu vinha desse país exótico chamado Brasil. Ela me explicou que ali era assim todo dia; as pessoas passavam no bar depois do trabalho, tomavam suas cervejas mais ou menos sozinhas, e depois iam embora dormir. Pareceu-me uma rotina banal e triste, mas não disse isso a Sandy.

Se você já esteve nos Estados Unidos, sabe que é difícil dissociar a imagem real da América daquilo que vemos nos filmes; eu sempre me pergunto o que veio primeiro: a América real ou a inventada pelo cinema. É impossível não reconhecer os restaurantes, as ruas, e os próprios personagens, como se estivéssemos dentro de um filme. Entrando pelo interior americano, essa sensação se intensifica, como se todos ali estivessem interpretando seus papéis de forma até um pouco caricatural. Não é difícil imaginar para Sandy um roteiro triste de mulher abandonada, que trabalha sem parar para sustentar duas crianças pequenas e espera pelo príncipe encantado em seu pub de beira de estrada.

No dia seguinte saí cedo para tirar o atraso do dia anterior. Foi o dia mais bonito da viagem: entrando na Virginia e passando pelo meio dos Apalaches a paisagem se alterna entre planícies onde é possível ver os picos ao fundo, vales enormes e longos trechos de vegetação cerrada, onde apesar do calor do verão era possível sentir até um pouco de frio. É também uma região onde se vêem várias pequenas propriedades produtoras de álcool, feito a partir do milho.

Dirigi por cerca de oito horas. Fazia paradas a cada duas horas, para abastecer e alongar o corpo. No final era como se eu tivesse tomado uma surra com barras de ferro nas costas. Mas como se sabe, toda peregrinação pressupõe algum tipo de desafio físico.

Nesta noite parei em Salem, uma cidadezinha de 25 mil habitantes na Virgínia. Uma cidade tão pequena que tinha apenas uma rua com 3 ou 4 kilômetros, onde se concentrava todo o comércio local e alguns bares. Entrei em um deles, tomei uma cerveja e voltei logo para o hotel.

No dia seguinte o café da manhã do hotel estava agitado, porque um time juvenil feminino de pólo aquático estava hospedado ali. Eram muitas garotas loirinhas e magricelas, andando em duplas e trios e falando muito alto. Na mesa ao meu lado, um casal de idosos as observava com interesse. Então o homem se levanta com uma maleta e vai na direção das meninas, tirando umas bexigas compridas, que ele enche e manipula com destreza formando figuras como patos, macacos e chapéus.

É isso que Oscar e Rhonda fazem; animam festas com seus bichos de bexigas. Ao conversar com eles, revelo a história da minha viagem. Oscar lembra que já tiveram uma moto, e anda pensando seriamente em comprar uma nova pra viajar com sua “old lady”, como ele diz. Rhonda sorri.

Oscar usa óculos fundo de garrafa engraçados, e de vez em quando aperta os lábios com força fazendo uma forma divertida com a bochecha. A relação entre eles é terna, e ele me diz que estão casados há 40 e poucos anos, e o segredo é nunca deixar de se divertir. Parece uma frase pronta, mas quando eles vêm se despedir vejo um brilho no olhar de Oscar, que se vira com cumplicidade para a mulher; ela retribui com um sorriso concordante. Ele diz “Take care” e emenda com um “Talvez a gente se cruze pelas estradas na próxima vez”.

O último dia é o mais longo e o mais dolorido: são quase dez horas na estrada, e saindo da Virginia a paisagem fica bem menos interessante. Uma grande e longa estrada, sem muitos atrativos naturais. Tenho de fazer paradas em intervalos menores, porque as dores incomodam; compenso tudo isso aumentando o volume do Ipod e cantando o mais alto que posso.

Esse trecho é cheio de longas planícies, e o vento estapeia com violência a mim e a Sharon. Agarro-me a ela com força, mas ele parece levar com seus dedos minha consciência. Me vejo tendo longos momentos de transe e despertando subitamente como de um sonho; simplesmente não consigo me lembrar do que estive pensando ou fazendo nos últimos minutos. No começo é um pouco assustador, mas depois percebo que este é o verdadeiro sentido da jornada: deixar-se levar por algo incontrolável e desconhecido.


A última parada antes de Lynchburg é Nashville, que fica a apenas 120 kilômetros da destilaria. Não sou um grande fã de música country, mas para qualquer um que goste de rock’n roll, Nashville é uma espécie de terra santa, por onde passaram aqueles que fundaram as raízes do gênero, como Elvis e Johnny Cash.

Mas Nashville me decepcionou: parecia uma espécie de caricatura de si mesma. O centro é relativamente pequeno, no cruzamento da Broadway com a Second estão boa parte dos bares e restaurantes com shows de country para turistas, como uma Disneylândia caipira, barulhenta e irritante. As ruas estão infestadas de um tipo de turista grosseiro, a maior parte deles americanos, presumivelmente tirando uns dias de férias pra encher a cara e bagunçar. Se o país parece sempre um filme, Nashville é o intervalo comercial: exagerado e histriônico.

Escolhi um bar sem música ao vivo e com a aparência menos turística possível. Tomei a primeira dose de Jack Daniel’s da viagem, ansioso pelo dia seguinte, enquanto refletia sobre todo aquele circo. Me pareceu curioso que na etapa final dessa jornada eu tenha ido parar ali, em Nashville e seus neons, seu country comercial e cheia de pessoas jecas e superficiais – a antítese perfeita da busca dessa viagem, que me ficava cada vez mais claro, era a busca da autenticidade; deixando para trás as máscaras e o olhar viciado, destilando a percepção em busca de algo realmente essencial e único.

Para chegar à Jack Daniel’s você sai de Nashville pela I-24, uma auto-estrada bastante movimentada; cerca de 50 minutos depois você pega uma rodovia estadual, e é aqui que a coisa começa a ficar mais divertida. Com pouco movimento, a TN-82 é uma estrada de mão dupla, ladeada por fazendas e casas de madeira bastante características, com cadeiras de balanço na varanda e tratores estacionados nos fundos. As casas não têm cercas ou muros, e neste momento você se sente realmente regredindo no tempo.
E então, finalmente, você chega.

A destilaria de Jack Daniel’s é a principal atração turística de Lynchburg, no condado de Moore. Recebe visitas diariamente para um tour guiado (gratuito) que passa por todo o processo de produção do uísque. O fato irônico aqui é que o condado de Moore é um dry county, ou seja, não é permitida a venda de bebidas alcoólicas. O que significa que, durante a visita, você não poderá provar uma gota sequer da invenção de Mr. Jack. Mas essa proibição, no fim das contas, torna a visita ainda mais intensa.

Scotty, um gordo simpático de bochechas e nariz rosados, é nosso guia pelo local. Em muitos momentos é difícil entender seu sotaque anasalado e resmungado, mas isso faz pouca diferença: a experiência principal da tour é sensorial.

Em primeiro lugar, há o impacto visual: enquanto você caminha pelas ruas dentro da fazenda, indo de um galpão ao outro no meio de uma vegetação intensa, nada lembra uma fábrica cuja produção atende ao mundo inteiro. Tudo é rústico e natural, com uma exuberância primitiva.

Dentro dos galpões, o que predomina é a experiência do olfato; apesar do milho ser o principal ingrediente de Jack Daniel’s, também são fermentados para gerar o álcool o centeio e a cevada. Cada tonel tem um cheiro característico, que o guia faz questão de mostrar. Você tenta buscar em sua memória o sabor da bebida e o lugar de cada aroma; é como tentar lembrar o gosto de um beijo.
A última parte do processo, e que diferencia Jack Daniel’s (é considerado um Tennessee Whiskey, não um simples uísque nem um bourbon), é o processo de charcoal mellowing, ou suavização no carvão. A bebida é despejada gota a gota em um tonel com carvão, e as propriedades filtrantes desse mineral são responsáveis pela suavização do sabor. São 12 dias até que o líquido chegue ao fundo do tonel. O cheiro aqui é intenso e ardido – como a excitação antes do sexo.

Há uma obstinação em preservar a tradição de Jack Daniel’s: você pode dizer isso é uma grande jogada de marketing; eu prefiro enxergar como parte do mito. São detalhes que preservam a personalidade da bebida. Toda vida precisa de histórias pra valer a pena ser vivida, mesmo que algumas estejam um pouquinho exageradas.

Saindo da destilaria é fácil chegar ao centro de Lynchburg, uma espécie de cenário de filme de faroste, um quadrilátero com uma igreja no centro e rodeada por lojas instaladas no que deviam ser saloons antigamente. Como a venda da bebida é proibida, a maior parte desses estabelecimentos se tornou lojinhas vendendo todo tipo de bugiganga com a marca Jack Daniel’s, o que acaba por diluir um pouco do encantamento.

Quando o dia começa a cair, grandes nuvens se formam no céu, e resolvo voltar para Nashville antes que a água desabe sobre mim e Sharon. Algo aconteceu, começo a pensar; toda viagem pode se tornar uma peregrinação atrás de revelação e sentido, e esta jornada bêbada por caminhos tortuosos juntou fragmentos que formam uma imagem autêntica e original, indo muito além das aparências. Não se trata de beber; trata-se de sentir a vida no que ela tem de mais intenso e puro; a experiência abstêmia na destilaria revela esse segredo – se beber é como sexo, explosivo e intenso, conhecer as sutilezas que compõem uma personalidade, de uma pessoa ou de uma bebida, é como descobrir o amor.

Se preferir baixe esse texto em PDF: https://bit.ly/2Vu4chS

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