Ou: Quando o mundo acabar ouviremos jazz? Crônica sobre dia onze de março de 2020, quando foi decretada oficialmente a Pandemia. Dois turistas em uma Nova York fria e apreensiva ao som de jazz.

Fazia muito frio em Nova York na noite de onze de março de dois mil e vinte – e certamente a sensação térmica era ainda pior, considerando a apreensão causada pelos últimos acontecimentos. As ruas estavam úmidas, cobertas por uma película brilhante de frio condensado, mas não chovia – era só o prenúncio de uma melancolia que se estenderia por meses.

O plano era caminhar pelo Greenwich Village, famoso reduto boêmio e artístico da cidade, e conhecer algumas das casas tradicionais de jazz. Àquela altura os bares ainda estavam abertos, ecoando sua luz amarela e seu calor pela noite do bairro, silencioso e com poucas pessoas circulando. 

Havíamos passado uma tarde agradável e alienada no MOMA, revendo antigos conhecidos em um museu com muito menos visitantes do que o normal. Entre um Warhol e um Basquiat chegaram as notícias, mas nenhuma das obras pareceu se abalar. Acho engraçado pensar, depois de tudo que tem se passado, que se um dia formos exterminados por um inimigo invisível, aquele acervo permanecerá intacto como testemunha muda dessa tragédia. Guardará pra si tudo o que fomos um dia e o que poderíamos ter sido. Dizem que as baratas sobreviverão ao apocalipse, mas a arte sobreviverá às baratas: os dançarinos de Matisse continuarão girando, apesar de estáticos, por toda a eternidade.

Começamos descendo as escadas do Mezzrow na rua décima, e para nossa surpresa o bar estava totalmente lotado – talvez reflexo de uma sensação de despedida que se abateu sobre a cidade. Mais cedo a OMS havia oficialmente classificado o Coronavirus como uma pandemia, e Donald Trump suspendeu todos os voos vindos da Europa. Talvez motivadas por um sentimento de urgência, talvez só alheias ao perigo iminente, as pessoas ocuparam as poucas mesas do bar como se fosse uma noite festiva. O ruído era alto, os copos estalavam e o ambiente era aconchegante, com um corredor estreito que se estendia até o palco no fundo.

O homem na porta nos recebeu sorridente enquanto distribuía comandos e respostas aos funcionários à sua volta, zonzos com o movimento. Talvez tenha pensado que, afinal, não era uma noite nada mal para o fim do mundo. “Quando o mundo acabar ouviremos jazz?”, ele pode ter se perguntado, enquanto nos garantia que apesar da lotação nos arrumaria um lugar privilegiado e explicava que o ingresso dava também um desconto no Small’s, uma outra casa do mesmo grupo que ficava um pouco mais à frente na mesma rua.

Ele nos acompanhou pelo ambiente rústico de tijolos à vista até a mesa, que era praticamente dentro do palco. O espaço para os músicos não era um tablado que os separava da platéia, mas sim uma linha imaginária e obviamente subjetiva que fazia essa divisão. Pedimos dois dry martinis e nos acomodamos um pouco tímidos na proa dessa arca improvável.

Éramos todos inconsequentes? Negacionistas? Hedonistas em desespero, pressentindo a privação do prazer e a naturalização da morte que se seguiria pelos próximos meses? É estranho pensar que, naquela altura, não tínhamos um sistema de valores, pensamentos e referências que pudesse dar conta do que estava acontecendo e o que viria a se desenrolar. Se é que já temos, mesmo nessa altura.

Eu mesmo havia sido teimoso na decisão de ir para Nova York, apesar dos alertas difusos de amigos e conhecidos, da crescente crise na Europa e das previsões catastrofistas que surgiam em cada vez mais quantidade. Eu seguia o que dizia a OMS e os órgãos oficiais internacionais (desconfiando sempre dos locais). Pelo menos um amigo havia tentado me convencer da gravidade da situação com dados concretos, mas ainda que parecessem convincentes, a imagem de ruas desertas, aeroportos fechados e bilhões de pessoas trancadas em suas casas parecia cinematográfica demais para ser contemplada como realidade. Eu acreditava na ciência e na capacidade do ser humano de lidar com a crise de uma forma racional e incisiva. Obviamente eu estava errado.

Quando o trio entrou no palco quase invadiu também meus pensamentos turbulentos. Como vai ser amanhã? O que terá mudado quando a música terminar, o sol nascer e os mercados abrirem no mundo ocidental? Se esse é o fim do mundo, quem vai dirigir esse filme? Entre a melancolia de Lars Von Trier e a histeria hollywoodiana, mal sabia que nos veríamos personagens coadjuvantes de uma farsa trágica sem clímax: não haveria correria, nem explosões, nem super-heróis. As pessoas morreriam nos corredores de hospitais enquanto aguardam vagas na UTI, definhando lentamente sem ar. Veríamos o surgimento de negacionistas, de teorias da conspiração, de falsos cientistas e soluções milagrosas, disseminando-se tão rapidamente quanto o próprio vírus. O sufocamento do Coronavirus viria lento e longo, asfixiando não só vidas mas também a razão, a solidariedade e a democracia. Um ano depois, quando alguém diz: “Vamos vencer o vírus”, eu só consigo pensar: “Mas o vírus já nos venceu”.

De qualquer forma, naquele momento nada disso era fato e nem previsível, e um sopro de esperança percorreu o longo caminho do trombone antes de ocupar o ambiente com uma bem-vinda gentileza. O líder da banda, Steve Davis, é um músico respeitado, que já tocou com Art Blakey e Chick Corea e tem umas duas dezenas de bons discos – isso só descobri depois. Naquela noite ele era apenas um senhor de seus cinquenta e poucos anos, o rosto redondo com olhos pequenos e a calvície coberta por uma boina. Tinha uma voz mansa que ficava em algum lugar desconfortável entre o agradecido e o temeroso – apresentou sua banda, composta por seu filho na guitarra acústica e um terceiro integrante discreto no baixo acústico, agradeceu a presença de todos mesmo “nesse dia tão incerto” e arrematou: “a música nos dá alento em tempos difíceis”.

A obviedade e uma certa ingenuidade da frase não tiraram o brilho do seu significado, que se ampliaria ainda mais nos meses que se seguiram. Para centenas de milhões de pessoas, a música foi a única âncora que as impediu de se perder em um mundo se desintegrando. Sentado ali a poucos centímetros de um trombone, esse instrumento grande e desajeitado, eu também me senti confortado em minha inquietude. Alguns meses depois eu mesmo compraria um trombone, descobrindo que a técnica dos instrumentos de sopro não é (só) sobre a quantidade de ar, mas sim sobre como controlá-lo. Não é sobre força, e sim sobre relaxamento. O trombone me acompanharia no ano seguinte como uma metáfora grande, desajeitada e bonita sobre o que vivemos.

Não foi, certamente, um show histórico – do tipo que será lembrado nos livros ou mesmo na memória de quem estava lá, exceto talvez por este pequeno relato. Mas foi um show caloroso, com um tipo de intimidade rara que soprava na alma de todos. Mas não me entenda mal: não foi um show calmo, do tipo cool jazz que você ouve pra relaxar; era suave como um dia de sol quente pode ser, macio como um gole de um bom bourbon, estimulante como cheiro de grama cortada. Eu nem sabia, mas já era a nostalgia da liberdade.

Saímos do transe bêbados e sem saber se ficávamos para ver a próxima banda ou iríamos conhecer o outro clube. Era tarde e apesar do frio decidimos ir. “É a última noite de Nova York”, dissemos, sem ter noção da extensão do significado dessa frase. 

O Small’s fica a pouco mais de uma quadra de distância, e tem uma configuração totalmente diferente do Mezzrow: apesar de também pequeno, não tem mesas: um balcão comprido se estende por todo o lado  direito do bar, enquanto do outro lado umas poucas dezenas de cadeiras de estilos variados ficam organizadas no formato de uma platéia meio caótica. 

A atração da noite era o pianista Kirk Lightsey, que do alto dos seus 83 anos já havia tocado com Chet Baker, Pharoah Sanders e Dexter Gordon. Além de ser provavelmente a pessoa mais em risco naquela noite, era também um dos mais animados, deslizando seus dedos no piano com uma mistura improvável de força e leveza. Kirk é um senhor magro e alto de aparência enérgica, calvo e com olhos fundos e óculos finos, e ainda que o resto da banda também fosse excelente era impossível não se fixar nele durante quase todo o show. Ele sorri, fecha os olhos e faz caretas, regendo nosso pequeno apocalipse com generosidade e firmeza.

Kirk estava acompanhado por um trio de guitarra, baixo e bateria, tocando de um jeito descompromissado e improvisado, uma espécie de free jazz impulsionado pelos gritos e aplausos da platéia. A atmosfera era de festa: se no outro bar o clima era de uma celebração íntima e ecumênica, aqui parecia de fato uma despedida, ainda que não soubéssemos disso naquele momento. A última noite da música como a conhecemos. Sem saber até quando.

Já era tarde da noite quando o show acabou e nos vimos decididos a voltar para casa. Estávamos hospedados em um apartamento não tão longe dali, facilmente acessível por metrô. Não sei se por descuido, bebedeira ou por homenagem ao Duke Ellington, nos vimos tomando o trem “A” na direção contrária, e só fomos perceber quando vimos as paisagens do Brooklyn no lado de fora. Talvez fosse também uma escolha voluntária, como se aquele trem mítico pudesse nos carregar para longe de tudo que estava se aproximando. Nos próximos dias, nos refugiaríamos na casa de amigos em New Jersey, visitaríamos supermercados com prateleiras vazias e falta de papel higiênico, veríamos os voos sendo cancelados, as mortes crescerem e a noção de civilidade se esvair.

Descemos do trem em uma rua vazia e desconhecida. Não havia no Brooklyn naquela hora qualquer sinal de que existia ali uma civilização. Os faróis giravam de vermelho a verde sem alarde, sem conter o vento frio e incômodo. Um Uber nos levou de volta para casa, atravessando pela última vez a ponte: estávamos quietos, as luzes brilhavam ao longe, as águas do rio Hudson pareciam congeladas; não havia música. 

Para baixar uma versão em PDF desse texto acesse aqui: https://drive.google.com/file/d/1kU8eP3y36Y5fZwmIXxm42sfRld_Ptx-G/view?usp=sharing